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sexta-feira, 21 de agosto de 2009

DEPUTADO PIRARARA

“É mentira dele. Pirarara come gente”.
Neuton Corrêa*

O homem que revirava a lixeira na parada do 422 me fez lembrar o ex-deputado Pirarara. Era um cidadão de braços potentes, cabelos grisalhos e pele branca. O que me fazia associá-lo ao ex-parlamentar eram os detalhes do rosto avermelhado, lábios descascados como escamas de cobra e a boca desnudada.
A última vez que vi o Peixe, em Parintins, ele estava na fila de um mutirão da Prefeitura para experimentar uma dentadura. Naquele dia, balançando a cabeça para cima e para baixo, Marupá comentou perto de mim: “Quem diria! Nem parece que esse homem já foi deputado. E um quase secretário de Estado!”.
Sim, Pirarara já foi um homem poderoso, tanto na política quanto no gado. Era dono de muitas terras, muito gado, muitos barcos. Mas sua fama não veio do mandato nem dos bois que criava. Popularizou-se pelo gênio forte, pelos discursos e pelas tiradas que dava para se livrar dos eleitores incômodos de época de campanha.
Testemunhei uma dessas tiradas em outubro de 1992, quando ele se lançou a prefeito de Parintins. Eram quatro candidatos ao cargo. Fui designado a cobrir a reta final de sua campanha. Nesses dias, ele fazia jus ao nome. Estava mais escorregadio do que peixe liso.Sem se importar com as condições, um eleitor se aproxima dele e diz: “Sêo Pirarara, eu queria uma ajuda sua. É que o meu filho morreu e eu preciso de um caixão...” Antes que o homem concluísse os argumentos, Peixe respondeu, quase cantando: “Pareeennte, eu não mexo com isso. Quem mexe com isso é o Irío (À época, dono da primeira e única funerária de Parintins). Ele é que sabe fazer caixão. Vá lá com ele”, recomendou.
Com a resposta, o homem encarou o candidato e fez outro pedido: “Então me ajuda a voltar para comunidade”. Pirara mostra interesse em atendê-lo e pergunta: “E como posso lhe ajudar?” O cidadão responde: “Me arranja aí um litro de gasolina”. O candidato lhe diz: “Poxa, parente, eu também não mexo com isso. Quem mexe com isso é o Dodó Carvalho (Dono de uma rede de postos de gasolina). Ele é que mexe com isso”.
Mas a história que mais marcou a campanha dele, naquele ano, foi a do discurso que fez em sua terra natal, uma comunidade ribeirinha do rio Amazonas. Lá, ele subiu num palanque improvisado e começou a fazer promessas de eleição:“Povo da Costa do Boto, se eleito eu for, vou aqui mandar construir uma escola. Não será uma escola de madeira, não. Vai ser uma escola em alvenaria”. Do meio do mato, porém, ouviu-se uma voz de oposição que gritava: “É mentira dele.”Pirarara não se abateu e continuou: “Não é mentira, não. Vou construir não apenas uma escola. Aqui também vou mandar fazer uma estrada para escoar a produção de vocês”. Do meio do mato, de novo, a voz cavernosa continuava: “É mentira dele”.
Pirarara mostrou-se ainda mais irritado e aumentou a promessa: “Não é mentira, não, minha gente, povo da terra onde nasci. Não vou construir somente a escola e a estrada. Quando eu chegar no ‘puder’, vou construir a escola, a estrada e um barco, pra levar a produção daqui para a cidade”. A voz do meio do mato gritou: “É mentira dele. Pirarara come gente”.
Pirarara perdeu de vez a paciência e concordou com a oposição: “Come, filho da p... Come gente, mesmo. Come a tua mãe também. Aparece aqui, vem aqui na minha frente que eu vou te comer também”.O 422 apareceu, olhei novamente para o homem da lixeira e embarquei rindo das lembranças do Peixe.

*Filósofo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

MINGAU DE MANGA

“Fala, Bodó! Aqui é o Mingau de Manga”.
Neuton Corrêa*
Mingau de Manga é o apelido do Everaldo. Recebeu a alcunha após uma briga de rua. Mas isso foi quando ainda era criança. Naquela época, era chamado por alguns de “E ele morre” e por outros, de “Né, mamãe?”. Na verdade, esses dois agrados foram variações da antonomásia original “E ele morre, né, mamãe?”. Não recebia os apelidos por acaso. Cada um tinha uma história. O “E ele morre”, por exemplo, foi por causa de um cachorro que caiu num buraco de rua em frente à casa dele. Era um buraco tão grande que o animal, coitado, debatia-se e não conseguia sair. O esforço do cão virou atração da molecada, que passou a atirar pedra no vira-lata.
Penalizado com a tortura, Everaldo fez apelos em favor do cachorro. Ameaçou atirar água gelada na turma, mas ninguém o atendeu. Mingau de Manga se enfureceu. Correu para dentro de casa, pegou uma panela com água e jogou na garotada. Em resposta, colocaram ele para fazer companhia com o pirento.
Mingau de Manga não se intimidou. Enfrentou a turma. Lembro-me ainda hoje dessa briga. Naquele tempo, Bruce Lee era o artista da moda. Não por acaso. Os filmes dele passavam quase todo dia no Cine Oriental. Pois bem, Everaldo ficou em posição de kung fu, deu uns golpes no ar com as mãos e os pés, mas acabou sendo dominado pelo bando.
Assim que percebeu que sua arte marcial não lhe ajudava, Mingau de Manga começou a chorar. E chorou ainda mais quando sua mãe apareceu no meio da confusão com um pedaço de ripa na mão. Foi aí que ele olhou para ela e para o cachorro e falou chorando, com pena do animal: “E ele morre, né, mamãe?”.
Lembrei-me das histórias dele esta semana, durante um engarrafamento na Zona Leste. Eu estava no ônibus, quando ouvi uma voz vinda de um alto-falante montado em um carro velho cheio de frutas: “Fala, Bodó! Fala, Bodó”. Ao ouvir isso, lembrei que aquele era meu apelido. (Preciso explicar: Bodó: peixe feio, porém gostoso).
Assim que olhei para a sucata ambulante, ele repetiu: “Fala, Bodó! Aqui é o Mingau de Manga”. Fazia mais de 20 anos que não o via, mas ainda guardava na memória os traços de sua fisionomia. Pus a cabeça para fora do busão e troquei algumas palavras com meu amigo de infância. Mas, enquanto eu conversava, meus pensamentos viajaram no tempo para recordar a briga que lhe rendeu o apelido.
À época, Everaldo era famoso por se envolver em confusão. Há muito queria brigar com o “Té Pégo”. Té Pégo era um garoto recém-chegado do interior e que arrastava muito o sotaque rural. Cerca com cerca, foi ser vizinho do “E ele morre”. Everaldo passou meses, talvez um ano, querendo medir força com “Té Pégo”, que sempre se acovardou.
Mas um dia perdeu a paciência e disse: “Tó qué? Vem cá!”. Mingau, que naquela época era apenas o Everaldo, se armou para o combate. Colocou o pé esquerdo na frente e o outro atrás. Esticou a mão esquerda quase no rosto do vizinho e a direita posicionou como uma garra de águia à altura do peito. E começou a gritar como Bruce Lee.
Sem estilo, Té Pégo fechou as mãos, endureceu o punho e esperou o ataque. De repente, os dois se embolaram. Té Pégo atracou Everaldo e o atirou no chão com a habilidade de um vaqueiro. E começou a sessão de socos.
Everaldo ainda tentou reagir, mas não conseguiu. Debaixo do rival, então, passou a gritar. “Bate, pode bater que tu vai te ver comigo. Bate, que tu vai te lascar pro resto da vida. Bate, que eu vou dizer pra todo mundo como é o teu apelido, seu Mingau de Manga! Mingau de Manga! Esse é teu apelido. Pensa que eu não sei. Vou espalhar pra todo mundo, seu Mingau de Manga.”
Os gritos de Everaldo viraram gozação na hora e, por caprichoso do destino, o apelido se voltou contra ele para o resto da vida.

*Filósofo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.Ilustração: Homahs.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

PIRUÁ OU PIPOCA?

Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho para sempre.

Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo, fica do mesmo jeito a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e uma dureza assombrosa. Só que elas não percebem e acham que seu jeito de ser é o melhor jeito de ser. Mas, de repente, vem o fogo.

O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos: a dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, o pai, a mãe, perder emprego ou ficar pobre. Pode ser fogo de dentro: pânico, MEDO, ansiedade, depressão ou sofrimento, cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso do remédio: apagar o fogo! Sem fogo o sofrimento diminui. Com isso, a possibilidade da grande transformação também.

Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro cada vez mais quente, pensa que sua hora chegou: vai morrer. Dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar um destino diferente para si. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada para ela. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo a grande transformação acontece: BUM! E ela aparece como outra coisa completamente diferente, algo que ela mesma nunca havia sonhado.

Bom, mas ainda temos o piruá, que é o milho de pipoca que se recusa a estourar. São como aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. A presunção e o medo são a dura casca do milho que não estoura. No entanto, o destino delas é triste, já que ficarão duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca, macia e nutritiva. Não vão dar alegria para ninguém.
Recebi este texto por e-mail, mas sem o autor identificado. De qualquer forma, não há como não postar.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

CORNO NEM PENSAR!

O "causo" abaixo foi postado no blog clubedabaladeira do meu amigo Emmanuel de Aguiar. O fato se passou na Manaus da década de 60, do século passado. Vejam que naquela época a classe política já era mal vista. Sinceramente, almejo que um dia esse sentimento de ojeriza seja minimizado e que a maioria dos nossos representantes possam fazer valer a vontade da coletividade. Vamos lá:
Lendo os noticiários sobre política e políticos, eu lembro uma história contada por meu falecido avô. Ele e dois irmãos eram proprietários de uma loja de ferragens em frente ao Mercado Municipal. Gozava de um círculo de amizades invejável. Tinha o carinho e a amizade dos mais ricos aos mais humildes clientes e fornecedores da loja, sem falar no respeito e admiração por parte dos funcionários da casa.

Um desses inúmeros amigos, praticamente todos os dias ia até a loja para trocar idéias e jogar conversa fiada com meu avô. Num desses dias, esse amigo chegou eufórico e disse:
- Seo Manoel, eu tenho uma notícia para lhe dar e gostaria de ouvir a sua opinião.
Meu avô, sempre muito tranqüilo, respondeu:
- Que raios de notícia é esta que eu tenho que opinar.
- É o seguinte Seo Manoel. Fui convidado para ser candidato a deputado estadual e aceitei. O que é que o Senhor acha disso?
Sem pensar, meu avô disparou - Ladrão, corrupto, safado, corno sem vergonha...
- Não entendi Seo Manoel! – respondeu assustado o amigo depois de ouvir aquelas palavras pronunciadas de forma agressiva, o que não era normal nem quando a discussão era acirrada sobre futebol e o Vasco da Gama.
Novamente, sem pensar duas vezes, meu avô disse ao amigo:
– Já que não entendestes nada, eu repito - LADRÃO, CORRUPTO, SAFADO, CORNO SEM VERGONHA...
- Assim o Sr. está me ofendendo Seo Manoel! - retrucou o amigo ainda sem entender direito quais eram as intenções de meu avô com aquelas palavras.
- Ora bolas! Não me pedistes a minha opinião? Pois bem! Estou apenas antecipando o que vais ouvir todos os dias depois de eleito.
Passado algumas semanas, o amigo que não tocara mais no assunto, voltou na loja e disse ao meu avô:
- Seo Manoel vim lhe dizer que eu mudei de idéia. Desisti de ser candidato.
- E posso saber quais foram os motivos – perguntou o meu avô.
O amigo, meio desconfiado, deu a sua explicação:- Seo Manoel, ser chamado de LADRÃO, CORRUPTO e SAFADO eu até agüentaria numa boa essa humilhação. Mas ser chamado de CORNO SEM VERGONHA isso eu não ia agüentar não. Corno nem pensar!...